20 filmes latino-americanos contemporâneos que você precisa conhecer

20 filmes latino-americanos contemporâneos que você precisa conhecer

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Podemos dizer que assistir e divulgar o cinema realizado na América Latina é importante para nos conhecermos mais, nos integrarmos mais, buscar mais laços, a partir de um Brasil tão isolado do resto dos países dessa região. Mas, para além disso, descobrir estas produções é se abrir para outras estéticas, outros olhares, outros enquadramentos da realidade e da existência.

Esta lista compreende 20 filmes lançados entre os anos de 2004 e 2023, completando duas décadas do cinema latino-americano. As escolhas certamente apresentarão lacunas e prováveis desequilíbrios em relação aos países. Isso acontece porque partem do meu contato pessoal com esta filmografia latino-americana, dentro das minhas possibilidades, em especial na minha experiência de viver no México. Entretanto, acredito que a necessidade e o prazer de falar sobre estes filmes é uma prioridade que se coloca acima de possíveis falhas.

A lista não inclui filmes brasileiros (excetuando-se uma coprodução), pois futuramente eles ganharão listas próprias neste site. Foram priorizados filmes que são, em maior ou menor medida, menos conhecidos no Brasil (com algumas exceções). A indicação das plataformas onde os filmes estão disponíveis para serem assistidos é relativa à data desta postagem da página, algo que com certeza estará sujeito às mudanças com o tempo.

Os filmes estão relacionados em ordem cronológica. Sem mais delongas, vamos à lista….           

1- Temporada de Patos

México

Fernando Eimbcke, 2004

Disponível na Netflix.

Que filme é esse?

Flama e Moko são dois amigos, de 14 anos, que passam mais um domingo juntos, como sempre costumam fazer. O tradicional dia de videogame, revistas e doces sai do cotidiano de normalidade devido à falta de luz e à chegada de mais dois personagens: o esquisito entregador Ulisses e a despachada vizinha adolescente Rita. Já a possibilidade de mudança de Flama para outra cidade, junto à sua mãe, surge como uma ruptura bem mais radical, que afetará aquele seguro universo da dupla de amigos.

 Por que ver?

Eimbcke realiza um filme simples, onde um mesmo apartamento, fotografado em preto em branco, se torna um cenário múltiplo de possibilidades. Um filme ao mesmo tempo divertido, pop e cativante, que toca também em temas como amizade e as descobertas sobre as formas de afeto. Vale o destaque para a deliciosa versão da cantora mexicana Natalia Lafourcade para O Pato (de Jaime Silva e Neuza Teixeira, imortalizada como bossa-nova por João Gilberto). 

2- Whisky

Uruguai

Juan Pablo Rebella, Pablo Stoll, 2004

Que filme é esse?

Jacobo, de 60 anos, recebe a visita de seu irmão Herman, que vive no Brasil e ele não vê há muitos anos. Ele vem para uma cerimônia judaica do matzeiva, em honra à mãe de ambos, recém-falecida e que Jacobo sempre cuidou. Instigado pela competitividade com o irmão e com vergonha de estar solitário, pede à Marta, funcionária de sua pequena confecção de meias, para fingir ser sua esposa.

Por que ver?

A convivência dos três personagens, entre a meia-idade e a terceira idade, é contada através de um humor sutil, seja nos ritos do cotidiano ou no constrangimento com as diferentes situações inusitadas ao longo do filme. As atuações de Andres Pazos, Mirella Pascual e Jorge Bolani, minimalistas, mas não menos expressivas, são impressionantes. 

Disponível (em qualidade mais baixa) no You Tube

3- Un poquito de tanta verdad

México

Jill Irene Freidberg, 2006

Disponível no You Tube

Legendado

Sem legenda

Que filme é esse?

O documentário acompanha o movimento ocorrido no ano de 2006 no estado de Oaxaca, México, que se iniciou com uma greve de professores por direitos, terminando em uma grande revolta popular, com barricadas, ocupação de prédios públicos e a organização da APPO (Asamblea Popular de los Pueblos de Oaxaca).

Por que ver?

Contado a partir do ponto de vista do trabalho em comunicação de um dos veículos tomados durante o movimento, uma rádio, o filme é um importante representante do movimento videoativista, muito presente na época. Realizado de forma independente e colaborativa, é um essencial registro de um momento histórico e de uma cultura de resistência.

4- XXY

Argentina

Lucía Puenzo, 2007

Disponível na Netflix

Que filme é esse?

O filme de Lucía Puenzo acompanha a história de Alex, uma pessoa intersexual, ou seja, que nasceu com ambas características sexuais. Em meio a conflitos envolvendo a crise de Alex com sua identidade e a necessidade de decisão sobre uma intervenção cirúrgica, seus pais resolvem passar um tempo em uma casa litorânea no Uruguai, onde recebem a visita de um casal de amigos e de seu filho adolescente, provocando outras reviravoltas.    

Por que ver?

Com uma câmera que se aproxima dos dramas do corpo e da compreensão de si, Lucía Puenzo realiza um dos mais profundos filmes já feitos sobre as identidades de gênero e as sexualidades. Nada aqui é simples e as expectativas são quebradas a cada novo momento. Destaque para o visceral trabalho da jovem Inés Efron, como a protagonista, e do sempre bom Ricardo Darín, interpretando o seu pai.

Trailer

5- El Infierno

México

Luis Strada, 2010

Disponível na Netflix

Que filme é esse?

Benny, interpretado pelo importante ator mexicano Damián Alcázar, é obrigado a regressar à sua terra natal, depois de ser deportado dos EUA. Contudo, ao voltar à sua pequena cidade, se depara com uma outra realidade, dominada pelos cartéis do narcotráfico.   

Por que ver?

Luis Estrada se especializou em narrativas onde a jornada do protagonista rumo ao inferno vai revelando, passo após passo, diferentes elementos e contradições da sociedade, mais especificamente da sociedade mexicana. El Infierno talvez seja o mais bem acabado exemplo desta classe de tragicomédia, repleta de eletrizantes elementos de gênero, que diverte, emociona e entristece. Do mesmo diretor, com o mesmo ator e com reflexões críticas semelhantes, é indispensável também La Ley de Herodes (A Lei de Herodes), realizado anteriormente, em 1999 e também disponível na Netflix.

6- Pelo Malo

Venezuela

Mariana Rondón, 2013

Disponível no Amazon Prime

Que filme é esse?

O pequeno Júnior, de nove anos (foto principal do post), vive em um conjunto habitacional de apartamentos em Caracas, junto à sua mãe, Marta. Ele passa seus dias sonhando em tirar a foto do colégio com uma roupa de cantor, que será feita por sua avó, e por isso deseja alisar seus cabelos cacheados, algo que se torna uma obsessão. Enquanto luta com dificuldades pela sobrevivência da família, Marta não consegue lidar com o comportamento de seu filho, que contraria os padrões sociais de masculinidade, assim como com os conflitos do menino em relação à sua auto-imagem.

Por que ver?

O filme de Mariana Rondón mergulha na subjetividade de Júnior e Marta, através de imagens, gestos, comportamentos e olhares. Ao mesmo tempo, observa o espaço urbano com uma direção de fotografia criativa, sempre apresentando a relação entre os espaços internos e externos, o detalhe e o geral, em um filme que também trata das imposições sociais sobre os corpos, as raças e as sexualidades. Uma curiosidade é a versão em espanhol da canção Meu limão, meu limoeiro, grande sucesso de Wilson Simonal e muito importante nos momentos de alegria entre Júnior e sua avó Carmen. 

7- Gloria

Chile

Sebastián Lelio, 2013

Disponível na Netflix

Que filme é esse?

Gloria, uma mulher de meia-idade, vive a sua vida, seu cotidiano, as suas alegrias e frustrações: trabalha, se reúne com seus filhos (junto aos seus problemas), canta aos brados no carro junto com a rádio, vai a bailes e boates, bebe, joga, paquera, faz sexo, se diverte e se decepciona nos relacionamentos.

Por que ver?

Paulina García estrela este precioso estudo de personagem, de uma mulher que está longe de representar uma figura virtuosa idealizada, mas que tenta encontrar algum eixo na sua caótica vida. Destaque para a trilha sonora, parte essencial para a condução e ritmo do filme, incluindo tanto o cancioneiro chileno, como cumbias peruanas, uma versão em espanhol de Gloria, de Laura Branigan, além de um momento bossa-nova um cantinho, um violão, com Águas de Março e outro dançante, com Lança-Perfume, de Rita Lee.

8- Güeros

México

Alonso Ruizpalacios, 2014

Disponível na Netflix

Que filme é esse?

Expulso de casa, Tomás vai morar com seu irmão, de apelido Sombra, em uma republica universitária precária onde ele vive com seu amigo Santos. Entre uma assembleia da greve ocorrida na universidade UNAM (de 1999 a 2000) e a busca por um lendário músico underground chamado Epigmenio Cruz, os três, junto também à amiga militante Ana, se aventuram pela cidade, vivendo toda sorte de problemas.

Por que ver?

Realizado com uma poderosa fotografia em preto e branco, em uma proporção de tela mais curta, em 4:3, Güeros é um dos melhores filmes mexicanos de sua década. Vai do cinismo à possibilidade de sonhar, entre fracassos, esperanças e decepções, em um fluxo incerto de caminhos (e descaminhos) pela metrópole. “Meu pai me dizia que o mundo era uma estação de trens e nós, os passageiros. Os poetas não são os que vão e vêm, mas os que ficam na estação vendo os trens partirem”.

9- Ixcanul

Guatemala

Jayro Bustamante, 2015

Que filme é esse?

Maria, de 17 anos, vive com sua família nas encostas de um vulcão, onde trabalham em uma plantação de café. A jovem sofre com a proximidade de um casamento arranjado por sua família, ao mesmo tempo em que se envolve com o jovem Pepe, que busca imigrar para os EUA para ir “além do vulcão”. Outros problemas acabam aparecendo para a comunidade, como uma praga de cobras venenosas, afetando a produção de café.  

Por que ver?

O vulcão (ixcanul) é aqui um cenário vivo, palco do cotidiano e do culto espiritual, da religiosidade e da urgência, algo muito bem captado pelo filme. Questões importantes acabam se entrecruzando, como as diferentes opressões contra as mulheres, a sexualidade na adolescência, a relação com a natureza e a imigração como destino dos trabalhadores. O filme foi realizado com indígenas maias, a maioria deles vindo do teatro de rua, e é todo falado na íngua kaqchikel, do ramo maia.

10- O abraço da serpente

Colômbia

Ciro Guerra, 2015

Disponível na Apple TV+

Que filme é esse?

Karamakate, um importante e sábio ancião, é o último sobrevivente de seu povo. Ele vive solitário, isolado dentro da Floresta Amazônica, e está sem memória. Com a chegada do etnobotânico alemão Evan, resolve acompanha-lo na busca pela yakruna, planta capaz de ensinar a sonhar. Presente passado e futuro vão se misturando ao longo dessa jornada, numa viagem onírica sobre encantamento, ancestralidade e as consequências da dominação. 

Por que ver?

Diferente de uma visão mais distanciada e materialista com que muitas vezes se retrata os povos indígenas, aqui abraça-se o mistério, através das imagens e da narrativa cinematográfica, sempre aberta a novas dimensões da realidade e das linhas temporais. O filme colombiano é uma grande aventura, no melhor sentido da palavra, pela Amazônia e pela alma dos personagens.

Disponível também You Tube, com menor qualidade

11- El Ciudadano Ilustre (O Cidadão Ilustre)

Argentina

Gastón Duprat, Mariano Cohn, 2016

Disponível na Apple TV+ e no You Tube

Que filme é esse?

No filme, Oscar Martínez interpreta Daniel Mantovani, um escritor argentino renomado, vencedor do Nobel. O autor já vive há três décadas na Europa, longe da cidadezinha onde nasceu, Salas, maior inspiração para a sua obra. Quando finalmente resolve retornar à sua terra, para receber o título de Cidadão Ilustre, enfrentará uma série de transtornos e situações inusitadas. 

Por que ver?

Assim como o já citado El infierno, temos aqui outra história de regresso à terra natal. O filme vai do humor de constrangimento à tensão próxima ao horror. Os rituais cerimoniais de homenagem, os peculiares personagens citadinos e a tensão entre literatura e o mundo real perpassam este delicioso filme, que destrói qualquer idealização sobre uma bucólica e simpática vida interiorana.  

12- Chavela

México

Catherine Gund, Daresha Kyi, 2017

Disponível na Netflix

Que filme é esse?

O documentário biográfico conta a história de vida de Chavela Vargas, uma das maiores cantoras da música mexicana. Nascida na Costa Rica, fugiu para o México na adolescência, onde cantou na rua, frequentou a boemia da Cidade do México, foi amiga de Frida Khalo e se destacou no belo e triste gênero musical das rancheiras. Lésbica e desafiadora dos padrões de se vestir e se comportar, acabaria por ter um novo reconhecimento na fase final de sua vida, em grandes espetáculos e na trilha sonora de reconhecidos filmes.

Por que ver?

O talento de Chavela já seria um bom motivo para ver o documentário. Mas a beleza de suas performances é inseparável de sua personalidade marcante e de uma história de vida sofrida e errática. O filme capta diferentes momentos de vida, tanto de decadência como de grande sucesso, através de diversas entrevistas e rico material de arquivo. Não continue a sua vida sem saber quem foi Chavela!

13- Candelaria

Cuba

Jhonny Hendrix Hinestroza, 2017

Disponível no Prime Video

Que filme é esse?

Candelaria e Victor Hugo, um casal idoso, vive junto em Havana, durante um período de crise, pós-fim da União Soviética. Ele trabalha em uma fábrica de charutos; ela, além de se apresentar como cantora, trabalha como camareira de hotel, local onde acaba encontrando uma câmera de vídeo, que modifica a vida do casal.

Por que ver? 

Com duas atuações poderosas, de Veronica Lynn e Alden Knight, Candelaria é em seu início um retrato cuidadoso do cotidiano, do trabalho e da vida privada. A chegada de um novo elemento tecnológico é disparador de novos sentimentos e sensações, produzindo, também, a entrada em ambientes bizarros, mediada pele câmera. Um filme sensível, amoroso e reflexivo. 

14- Retablo

Peru

Alvaro Delgado Aparicio, 2017

Disponível para aluguel

Que filme é esse?

O retablo ayacuchano é uma tradição andina peruana, com influências do catolicismo, onde caixas de madeira com pinturas e figuras em alto-relevo representam diferentes momentos da cultura e convivência social. No filme, todo falado em quechua, Noé é um retablista que introduz o seu filho Segundo na arte do retablo, no ataliê doméstico da casa em que vive junto a Anatolia, sua esposa e mãe de Segundo. Em meio ao trabalho, à família e à convivência com seus amigos (referências suas para um tipo de masculinidade), o jovem Segundo acaba descobrindo um segredo de seu pai.

Por que ver?

Na arte do retablo, faz-se necessário memorizar a imagem das pessoas representadas, que encomendam as peças para casamentos e outras celebrações. Esta técnica, passada de pai para filho, é mostrada muitas vezes de dentro da própria obra e representa este desafio de captar o momento, assim como ocorre também no cinema. Mas, aqui, a beleza da cultura popular se confronta com os elementos de conservadorismo, da intolerância e da violência, onde a tradição está bem longe de ser apenas um elemento a ser romantizado.

No You Tube (em qualidade mais baixa)

15- Los Silencios

Brasil/Colômbia/França

Beatriz Seigner, 2018

Disponível no Apple TV+

Que filme é esse?

Núria, uma menina de 12 anos, chega em uma ilha na fronteira entre Colômbia, Peru e Brasil com sua mãe Amparo e o irmão, Fábio. A família está fugindo dos conflitos armados ocorridos na Colômbia e a mãe busca trabalho, regularização no Brasil e uma indenização pela morte do marido, morto em um deslizamento provocado por uma mineradora. Entretanto, Núria passa a ver o pai, supostamente falecido, em uma das casas de palafita da ilha.

Por que ver?

A fronteira entre EUA e México já foi tema de inúmeros filmes e outras produções; aqui temos uma fronteira sul-americana bastante representativa dos conflitos e vivências da região. Através de cores, escuros, sons e silêncios, a cineasta brasileira Beatriz Seigner nos traz uma obra onde o sobrenatural vai se adentrando na narrativa, da mesma forma que as embarcações adentram as águas, misturando o fantástico com os enfrentamentos da vida e a luta política dos povos.     

16- Las herederas

Paraguai

Marcelo Martinessi, 2018

Disponível para aluguel

Que filme é esse?

Chela vive junto à sua esposa Chiquita. Ambas são mulheres de mais de sessenta anos, provenientes de famílias abastadas, mas que se deparam com uma situação econômica muito desfavorável, obrigando-as a vender seus bens. Depois da prisão de Chiquita, por problemas com um banco, Chela começa a oferecer serviço de motorista para encontros de senhoras, momento onde conhece Angy, mulher mais jovem, cheia de personalidade, vida e sex appeal.

Por que ver?

Em seu primeiro filme, a atriz Ana Brun recebeu o Urso de Prata no Festival de Berlim no papel Chela, primeiro prêmio do Paraguai neste festival. Ao ver o filme de Marcelo Martinessi, é possível entender o porquê da premiação. Sua personagem, anteriormente apagada e mais submissa diante Chiquita, após a prisão da companheira passa a ver um outro mundo, com possibilidade de descobrir a si mesma através de uma liberação de sua individualidade. Sua atuação, que vai da tristeza discreta ao desvendamento do mundo, é profundamente humana.

17- Ya no estoy aquí

México

Fernando Frías, 2019

Disponível na Netflix

Que filme é esse?

Morador de Monterrey, norte do México, Ulises é um “cholombiano”. Ele e seu grupo de amigos do bairro chamados “Los Terkos” são entusiastas das “cumbias rebajadas”, gênero musical inspirado nas cumbias colombianas, que também marca um estilo de vida daquela juventude. Ao se envolver, contra a sua vontade, em uma confusão com uma gangue local, é obrigado a fugir para os EUA, se distanciando de tudo o que ele reconhece como seu.      

Por que ver?

O nome (em português “já não estou aqui”) é uma escolha perfeita, pois este é um dos pontos centrais do filme: a inadequação de não estar mais em seu lugar. A primeira parte de Ya no estoy aquí é uma panorâmica sobre os “cholombianos” (ou “kolombias”), onde a câmera acompanha tanto o ponto de vista de baixo, com os passos de dança agachados, como o olhar da paisagem para a amplidão do bairro. Mas, de forma corajosa, em sua segunda parte o filme se recusa a repetir uma narrativa convencional sobre imigração, retratando muito mais o vazio de perder-se de sua identidade do que a idealização de uma transformação redentora, gerada a partir de desafios vencidos.

18- Noche de Fuego (A noite do fogo)

México

Tatiana Huezo, 2021

Disponível na Netflix

Que filme é esse?

Ana vive em uma comunidade rural do México, imersa nas brincadeiras e descoberta de pequenos universos proporcionados pela natureza do entorno. Contudo, o seu mundo particular é abalado pela ameaça de grupos criminosos na região. Mostrada em duas fases de sua vida, na infância e adolescência, Ana, com apoio de sua mãe, terá que criar formas de fugir à violência sofrida por muitas meninas daquelas comunidades, entre elas cortar o cabelo e se esconder em um buraco construído como esconderijo.

Por que ver?

Tatiana Huezo realiza aqui o seu primeiro filme de ficção, depois de realizar algumas produções documentais, também sobre o tema da violência. No lugar de explorar, de forma sensacionalista, este assunto já tão abordado pelo cinema mexicano, opta por partir da subjetividade da sua protagonista: uma menina descobrindo o mundo, junto com suas amigas, e uma adolescente diante da maturidade e perda da inocência. Da mesma forma, recusa-se a retratar as mulheres e a comunidade como seres que só existem para serem vítimas, preferindo, por outro lado, a força e o fogo de quem resiste à barbárie.   

19- Blondi

Argentina

Doloris Fonzi, 2023

Disponível no Amazon Prime

Que filme é esse?

Blondi é uma mulher de quarenta e poucos anos, que sobrevive como chefa de uma pequena equipe de pesquisadores de opinião e estatística, de porta em porta. O filme é centrado na relação com seu filho adolescente Mirko, com temperamento oposto ao seu, mas não menos companheiro de sua mãe. Ele quer alçar voos próprios em seus estudos e carreira e o medo de quebrar aquele laço tão poderoso com a mãe traz um conflito difícil de resolver. Roqueira e consumidora habitual de cannabis, Blondi enfrenta os desafios do dia-a-dia, a relação com a mãe e a irmã, sem conseguir escapar dos julgamentos de quem a vê de fora.

Por que ver?

Doloris Fonzi dirige e protagoniza este filme de pequenos momentos banais e diálogos afiados, numa vida não-convencional de luta para viver e sobreviver. A irmã, Martina, que tinha tudo para ser a mais centrada, é ainda mais perdida, com seu casamento infeliz, problemas de depressão e busca por respostas para a sua vida. Já a mãe, Pepa, é compreensão e equilíbrio. Nem todo personagem de filme tem como função gerar empatia e identificação do público, mas Blondi é aquele típico filme delicioso onde, ao terminar a exibição, queremos mandar uma mensagem convidando personagens fictícios para uma cerveja no fim da tarde.

20- Rotting in The Sun

México/EUA

Sebastián Silva, 2023

Disponível na Mubi

Que filme é esse?

O diretor chileno Sebastián Silva interpreta aqui um personagem de mesmo nome, em uma espécie de auto-ficção. Sebastián, no filme, é um cineasta e artista multimídia, que vive na Cidade do México, imerso em drogas e numa crise melancólica, de tendências suicidas. Por sugestão do zelador da residência artística onde vive, faz uma viagem para uma praia nudista gay, onde conhecerá, durante um afogamento, o influencer estadunidense Jordan Firstman (também feito por ele próprio). Com personalidade bastante diversa à de Sebastián, mas admirador de seu trabalho audiovisual, o influenciador acaba lhe fazendo uma proposta de trabalho. 

Por que ver?

Rotting in the sun (algo como “apodrecendo no sol”) é um carro desgovernado, no melhor sentido que esta metáfora pode ter. O início do filme é um drama existencialista, com Sebastián lendo o filósofo pessimista Emil Cioran, enquanto tenta não se matar. A partir da praia, do contato com o influencer e do início da nudez e sexo explícito que permanecerão até o final do filme, o rumo começará a mudar, algo que sofrerá mais tarde uma cisão narrativa ainda mais radical, com grande presença da ótima atriz chilena Catalina Saavedra. Abrupto, radical, por vezes incômodo e com influência de estéticas do hiperespaço, Rotting in the sun é um filme totalmente atípico e deliciosamente insano.

Gabriel Barcelos Sotomaior

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